É possível construir sustentávelmente?

Um desafio para as cidades e suas construções
Mudanças nas compras empresariais atingem a construção civil, setor
que congrega otimismo no Brasil.


Responsável por 10% do PIB global, chegando
a 40% em algumas economias, o setor representa um terço dos gases
de efeito estufa emitidos no planeta, conforme dados do Sustainable Buildings
and Climate Iniciative (UNEP-SBCI), da ONU18. Mais de US$ 7 trilhões
são gastos anualmente em construções, com estimativa de atingir US$ 100
trilhões até 2020, segundo relatório divulgado pela entidade. “O potencial
de investimento é alto, mas a fatia para a construção sustentável é ainda
pequena”, lamenta Curt Garrigan, coordenador da UNEP-SBCI. Ele apresentou
estudo mostrando que o setor é responsável por 40% da energia e 25%
da água consumida no mundo – números que tendem a crescer a partir
do aumento da população urbana e da necessidade de garantir moradia
para todos. Até 2030, segundo Garrigan, 3 bilhões de pessoas precisarão
ter acesso a habitação, principalmente nos países em desenvolvimentoIV.
“O papel das cidades e do setor de construção civil é central para a transição
na direção de uma economia verde”, ressalta Pavan Sukhdev, chefe
da Iniciativa em Economia Verde do Programa das Nações Unidas para o
Meio Ambiente. “O setor privado não pode seguir adiante sozinho porque
é limitado pelo lucro, o propósito primário de uma corporação”, acrescenta
Pavan, defendendo incentivos financeiros para o setor. Ele argumenta: “é
difícil as empresas optarem por construções sustentáveis se no mundo há
US$ 65 bilhões em subsídios para a produção de combustíveis fósseis, mais
US$ 275 bilhões destinados a uma agricultura não sustentável e outros
tantos bilhões para a pesca que agride os oceanos”. Na opinião de Pavan,
mudanças ocorrerão por intermédio de políticas públicas, através de incentivos
e também do poder das compras governamentais. “Um milhão de dólares em investimento verde pelo governo pode gerar
de US$ 5 a 10 milhões aplicados pelo setor privado”, completa Pavan. Os
governos locais das cidades, neste sentido, têm à sua disposição diversas
ferramentas administrativas, regulatórias e econômicas para promover
estas mudanças no setor, no âmbito do planejamento urbano, gestão dos
resíduos da construção civil e saneamento, por exemplo19. A Copa das Confederações
de 2013, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 no
Brasil têm potencial de motivar projetos de construção civil sustentáveis
e infraestrutura urbana verde e inteligente nestas cidades.
Cresce a busca por selos verdes como maneira de diferenciar empreendimentos
que seguem regras ambientais, comprovadas por auditorias.
Além dos sistemas para o aumento da eficiência energética e economia
de água na operação dos edifícios, a preocupação abrange a adoção de
boas práticas durante a obra, como a reciclagem do entulho e a garantia
da origem da matéria-prima.
No caso da madeira, devido a esquemas de fraudes na emissão da Guia
Florestal ou do Documento de Origem Florestal, o carimbo da certificação
socioambiental é visto como única garantia sobre a procedência não predatória
do material. Há desafios para uma maior adesão do mercado aos
selos, que envolvem custos para mudanças de processos e adequação às
normas, com reflexos nos preços. Para Greg Kats, presidente da empresa Capital E, “é preciso desmistificar que as construções
sustentáveis são mais caras”. Pesquisa realizada sob sua coordenação em
170 prédios de 15 países revelou o contrário. “Em 20 anos, edifícios verdes e
Economia Verde: Oportunidades para Edifícios e Cidades Sustentáveis em 2012.
geram retorno equivalente a 2,5 vezes o valor do investimento, a partir da
economia de água e energia”, diz o executivo. Estima-se que os edifícios
sustentáveis ofereçam uma economia de até 30% no valor do condomínio,
incluindo aí as reduções do consumo de energia, água e do custo operacional
do edifício (manutenção e reformas). Além disso, segundo o Green
Business Council Brasil, há um aumento de 20% no valor de venda do empreendimento
após 20 anos de uso20.
“Foram construídos no Estado de São Paulo 3 mil bairros nos últimos
40 anos, totalizando 450 mil moradias, mas em muitos casos se ocupou
lugares inadequados, sem condicionantes ambientais”, destaca Eduardo
Trani, assessor da Secretaria de Habitação, defendendo medidas para se
colocar em prática políticas de urbanização de favelas e de provisão de
moradias novas. Ele informa que o Estado de São Paulo foi convidado para
compor o SUSHI (Iniciativa de Habitação Social Sustentável), um projeto
da UNEP-SBCI que tem como objetivo aumentar o uso de edifícios sustentáveis
(em termos de recursos naturais e eficiência energética) e soluções
de design em programas de habitação nos países em desenvolvimento.
As novas moradias da Companhia de Desenvolvimento Habitacional
e Urbano (CDHU) são entregues com aquecedores solares, que permitem
uma economia de cerca de 30% na conta de energia dos mutuários. Além
disso, as casas têm janelas mais amplas para maior iluminação e ventilação.
Um exemplo é o residencial Rubens Lara, em Cubatão (SP), reconhecido
como moradia popular verde pela ONU. O projeto na Serra do Mar tirou
7,5 mil moradores de uma área de preservação ambiental, a um custo
superior a R$ 1 bilhão

“As lições do SUSHI no Brasil mostram que, além
de reduzirmos recursos naturais, resíduos sólidos e emissões de gases de
efeito estufa, o projeto pode contribuir para a geração de empregos verdes
e para a erradicação da pobreza”, completa Trani. Há reflexos sociais e culturais
importantes: “estudos mostram que uma criança com mais espaço
e ventilação apresenta melhores resultados na escola”.

O exemplo de São Paulo, no entanto, é isolado. No nível nacional, o
aquecimento do mercado imobiliário não foi acompanhado de esforços
de grande escala em favor da sustentabilidade. No programa Minha Casa
Minha Vida, do governo federal, são tímidas as iniciativas focadas em contratações
de obras com critérios socioambientais.
Empresas de economia mista são instigadas a gerar resultados financeiros
e ao mesmo tempo arriscar nos investimentos que zelam pelo aspecto
social e ambiental. Como muitas atuam em serviços de grande volume, é
notório o seu poder de influenciar o mercado e gerar escala por meio das
compras e contratações. Seguindo o rastro das normas do governo paulista
, a Companhia de Saneamento Básico do Estado
de São Paulo (Sabesp), uma das maiores empresas de saneamento básico
do mundo, iniciou em 2009 o processo de compras sustentáveis, dando
preferência a equipamentos eletrônicos de baixo consumo energético,
contando hoje com 259 itens com o Selo Socioambiental do Estado de São
Paulo21. Entre as primeiras normas adotadas pela empresa, destacam-se a
supressão do amianto (insumo considerado cancerígeno) na construção
civil e o reprocessamento do óleo lubrificante usado. Entre 2006 e 2010, a
empresa multiplicou por seis o seu consumo de papel reciclado em relação
ao comum. Não é uma quantidade pequena, sabendo-se que ao todo são
15 mil funcionários e milhões de clientes.
Em obras, a Sabesp gasta por ano em torno de R$ 2 bilhões – montante
que aponta a força do setor na indução de mudanças. Um exemplo recente
é o uso de agregado de entulho reciclado na construção de adutoras para
distribuição de água. A alternativa é mais barata e substitui a areia, extraída
do leito de rios muitas vezes com impactos negativos ao ambiente. Após
experiência piloto em 2010 junto a uma usina de reciclagem que formulou
o material e fez os testes, o novo insumo foi empregado no ano seguinte
na obra de uma adutora de 2,5 Km, no Projeto Tietê. O produto a partir do
entulho foi então liberado para compor as licitações, desde que aplicado
em construções de menor risco estrutural.
“A expectativa é que agora as empreiteiras expandam o uso do produto
reciclado nos serviços para as empresas em geral, desenvolvendo o novo
mercado”, afirma Marcelo Morgado, assessor de meio ambiente da Sabesp.
“Sob controle acionário do Estado, temos maior margem para apostar no
fomento ambiental, seguindo políticas públicas”, enfatiza Morgado. Sem
prejudicar a conta geral da companhia, abre-se mão do lucro de curto prazo
em nome de um bem maior e de longo prazo para sociedade, mesmo tendo
que seguir normas legais mais restritivas que os seus parceiros do setor
empresarial. Um programa de uso racional da água induziu fabricantes a
desenvolver válvulas, bacias e outros equipamentos hidráulicos mais eficientes,
que se disseminaram e hoje são vendidos a preços acessíveis. Como
resultado, em uma década o consumo de água caiu quase pela metade na
Região Metropolitana de São Paulo.
A busca de soluções junto a fornecedores promove a disseminação de
boas práticas também em outras cadeias produtivas. Estudos e análises
da FGV demonstram que apenas quando toda a cadeia é observada é possível
reduzir custos e conquistar mercados. Pequenas e médias empresas,
neste contexto, são fundamentais para promover inovação, gerar escala
em sustentabilidade e desenvolver a cadeia de valor. Empresas de grande
porte tendem a ser mais resistentes ao novo, já que a cultura organizacional
está mais consolidada e é mais pesada. No âmbito do programa Inovação
na Criação de Valor do GVces, concluiu-se que as grandes empresas estão
compreendendo que sua cadeia de suprimento é importante no valor final
dos seus produtos e das próprias organizações, tanto para depreciá-los
como para melhorá-los.
O desafio não se limita a impor critérios aos fornecedores unilateralmente,
mas desenvolver soluções conjuntas. “Organizações inovadoras têm
predisposição a alianças e parcerias”, avalia o professor Wilson Nobre, da
FGV, para quem “problemas complexos só podem ser resolvidos de maneira
colaborativa e participativa”. É uma estratégia de gestão típica da transição
para a “economia verde”, na qual o diálogo é um de seus principais pilares.
A expressão “responsabilidade compartilhada” se integra ao vocabulário
das empresas e as suas relações com fornecedores. Como pano de fundo
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estão políticas institucionais de compras e contratações e o olhar atento de
grupos de consumidores e de órgãos de controle, que passam a não aceitar
a omissão das organizações com relação as suas práticas de contratações.
As empresas entrarão na onda da sustentabilidade seja por iniciativa
própria ou por pressões externas. O maior grupo empresarial de moda do
Brasil, o Guararapes Confecções, controlador das lojas Riachuelo, ainda
em 2012 afirmava não garantir a não utilização, por seus fornecedores, de
mão de obra escrava, infantil, ou se operavam com práticas de segurança
e sustentabilidade22. Assim, mesmo sem querer, acabam sendo solidárias
às empresas que adotam práticas irregulares, o que leva a associação do
setor a recorrer a ações de gerenciamento de risco e relacionamento com
a imprensa.
No caso da soja, a cobrança internacional após campanhas ambientalistas
junto às redes de fast-food na Europa forçou o setor a se aliar a ONGs
e governo para sair da inércia. “Passamos a ser proativos e declaramos ao
mercado que não compraríamos grãos produzidos em áreas desmatadas
depois de julho de 2006”, conta Carlo Lovatelli, presidente da Associação
Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais. Lançada quando o desmatamento
atingia recordes na Amazônia, a Moratória da Soja criou um sistema de
monitoramento por satélite, sobrevoo e vistoria de campo, acompanhado
por um comitê. Participam atores que antes tinham relações conflituosas
e até litigiosas, mas agora buscam objetivos comuns.
Já no setor siderúrgico, o compromisso de usar apenas carvão vegetal
produzido a partir de florestas plantadas, sem a destruição de matas nativas,
tem como alvo os produtores independentes de ferro-gusa, matéria-prima
das siderúrgicas. Cerca de 60% do carvão para o setor provém de árvores
nativas, na maior parte de origem ilegal ou predatória, segundo estimativa
divulgada em 2012 pelo Instituto Ethos23. Doze empresas assinaram o pacto
para implantar critérios de sustentabilidade e obter auxílio tecnológico para
rastrear o produto desde a origem. Em paralelo, o Instituto Aço Brasil criou
um protocolo para que também as indústrias siderúrgicas na ponta final da
cadeia – e não apenas os produtores de gusa – assumam a meta de obter
100% do carvão a partir de florestas plantadas no prazo de quatro anos.
O compromisso abrange ao todo 11 grupos empresariais de grande porte
que produzem 35 milhões de toneladas de aço bruto por anoVI. “Criaremos
programas para transferir tecnologia e orientar fornecedores a trabalhar
dentro da lei, além de validar as ações em parceria com ONGs”, informa
Maria Cristina Yuan, diretora de sustentabilidade. Essas alianças empresariais,
para terem legitimidade, precisam ser objeto de controle social
com participação do Estado, ONGs e cidadãos zelosos pelo cumprimento
dos compromissos e metas pactuados pelas empresas. Se isso não ocorrer,
há o risco de haver apenas publicidade favorável a atividades perniciosas
à saúde ambiental e humana. No caso dos pactos monitorados pela
iniciativa Conexões Sustentáveis, as organizações podem ser suspensas
e excluídas da iniciativa caso não publiquem relatórios satisfatórios aos
olhos de seu comitê.

 

fONTE: Compra sustentável
A força do consumo público e empresarial
para uma economia verde e inclusiva
São Paulo
Programa Gestão Pública e Cidadania
2012

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